A vida é um ininterrupto caudal de experiências renovadas, as nossas próprias e as da «civilização».

Ter angústia existencial - perante a finitude da vida de cada um - para quê? - se a cultura continua e sempre se transformará. Pelo menos, é nisso que parecemos estar crentes.

Para melhor?

O cérebro alimenta-se de informação, a alma, da relação.
Vivemos na era da informação. Quando chegará a do amor?


Possivelmente é um erro supor-se que um interesse, seja qual for, reside nisso mesmo em que se está interessado. Não está. Um interesse remete sempre para outro e outro, até ao interesse final que tem que ver com a própria vida, o motivo global que nos impulsiona.

Há pelo menos que haver uma razão final e genérica para que as razões circunstanciais ou ocasionais tenham um efeito propulsor. Há que termos essa razão, mesmo inconsciente, para que todas as outras actuem em nós. É o que não acontece quando por exemplo dizemos que estamos sem interesse. Não nos apetece ler, não nos apetece escrever, não nos apetece ir ao cinema, ouvir música, etc, quando falta uma razão global em que isso se inscreva. E então dizemos sumariamente isso mesmo: que não nos apetece.

Os que superam esse estado são excepcionais, ou loucos ou de força de vontade ou obsessivos, o que tudo é um modo de dizer que se está fora dos limites normais.
Sempre irrequieto e divagante, eterno
caminheiro - lesto entre fragas e silvas
e no terreno xistoso dos vinhedos e algo
trôpego entre arranha-céus e nos salões -
com o pensamento na Lua, o pé na estrada
e o olhar nos outros.

António Coimbra de Matos
As pálpebras cerradas, o vermelho, ainda, nelas... O abandono a um barco que desliza e nos leva. A pele ainda estala à ardência imóvel como que de meio-dia, um cansaço ténue como um sorriso interior.

O Sol desceu mas deixou aquele rasto do seu turbilhão. Fica o tal incêndio sobre as águas, abre-se ao imenso de o olharmos. O mar escurece, uma cor fria desce-lhe para a profundidade. Plácidas, as águas adormecem ao meu olhar fatigado. Olho demasiadamente esvaído de horizonte, olho o mar em frente, contornado por uma estrada onde passam carros minúsculos e que eu imagino sempre precipitados na ribanceira...

Tanta coisa ainda ao pé a ameaçar-me. E então um arrepio sobe em mim, aperta-me a garganta. Reentro em casa, imagino ao percorrer a sala até à cozinha, fechar talvez as janelas do quarto à humidade da noite que vem aí. Estou bem. Cansado até às raízes de mim, mas estou bem. A vida inventa-se em cada hora em que ela se-nos inventa, o meu olhar ilumina-se agora com a lâmpada de cada dia.

Uma serenidade invulnerável alastra pelo universo. O mar deserto até ao limite do poente. A vida inteira dentro de mim.

(21-VIII-2007)
O pensamento divergente sobre o tema leva-me a ter algo de antagónico em mim quando reflicto sobre ele. É verdadeiramente algo com o qual não sei lidar. Ninguém sabe, mas, seguramente, que me parece que o sei ainda com menor intensidade...

O que mais me intriga e dói na nossa morte, é que nada se perturba com ela na vida normal do mundo. O que mais podem fazer é tomar nota do acontecimento e recomeçar.

Quando alguém morre, a vida continua natural como se quem existisse para morrer fossemos apenas nós. Porque tudo converge em nós, em quem tudo existe, e assim nos inquieta a certeza de que o universo morrerá connosco. Mas não morre. O universo está-se nas tintas para que morramos, ou não. E isso é que é incompreensível - morrer tudo com a nossa morte e ficar tudo perfeitamente na mesma.

A morte não é um acontecimento da vida. A morte não pode ser vivida. Caso se compreenda por eternidade não uma duração temporal infinita, mas a intemporalidade, quem vive no presente é quem vive eternamente. A nossa vida é tanto mais sem fim quanto mais o nosso campo de visão não tem limites.

É irreversível a «bi-polaridade» na qual se gera esta ampla redundância no meu pensamento. Leio-o do fundo para a superfície, como que se da morte ecoassem pensamentos para a vida, numa espécie de mecanismo de defesa rudimentar que me impele a ser como sou, assim como todos, permitindo-me, afinal, viver.
O peso da dor nada tem que ver com a sua qualidade. A dor é o que se sente, mais nada. Desisto de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exactamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida da importância que em cada momento teve. Como se eu jamais tivesse envelhecido. Exactamente porque só é fútil e ingénua a infância dos outros - quando se não é já criança.

Estranho poder o da lembrança... quase tudo o que me ofendeu me ofende, quase tudo o que me sorriu sorri. Nada era como eu tinha fantasiado e não sabia porquê. Parecia-me que havia sempre outras coisas à minha volta que eu não supunha, e que essas coisas tinham sempre mais força do que eu julgava. Eu e as minhas escolhas, para mim, não tinham mais que a importância que eu lhes dera.

Da pressão exterior, cada um de nós podia refugiar-se no mais fundo de si. Nenhuns sonhos se negavam ao apelo da nossa sorte, aí na nossa íntima liberdade...

13

Vivo, porque espero. Lembro-me, e existo.
Tudo se funde e confunde. Ainda continuo aqui.

Factos

Engana-se quem pensa que num dia livre não há espaço para pensar.

Esquece-se quem fala das fartas festanças, pois, quando tentamos transformar a nossa existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão... muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que termina na mentira reciproca.

Mente quem acredita que em dia de comemoração apenas há alegria.

É-se vazio, quando se acredita que tudo se resume ao não-querer-pensar e, chega-se ao limite, quando tal se transfere e se transforma, em definitivo, no acreditar de todos e de ninguém.

Há sempre, sempre algo a retirar. Nunca, nunca se retira nada.

Mas, situado no preciso ponto sublime de tudo isto... há sempre espaço para um grande motivo de orgulho...

Envelhecer

Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer...

Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente.

Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice.

Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim'

Fragmentos

são eles,
os pensamentos,
restritos à condição do efeito que lhes deu origem, num instante,
e
sou eu,
quem lhes chega sem saber a que venho e nem mesmo se me ergo,
qual incêndio crescente a eclodir rente ao firmamento.

Ana de Sousa, Fragmentos - Livro I

...de quem espero que não veja má importância no acto de aqui colocar as suas palavras.

Ideais

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,

multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.


Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

~Eugénio de Andrade


Assim os levou consigo, adormecidos, os seus ideais, que lhe permanecem, pelo menos em espírito, espero, tal como deveriam florescer em quem não os detém como seus: é urgente que o façam. Bem pior do que não os termos em nós, é termo-los e não sermos donos de o saber e de o dar também a conhecer... ao mundo.
É urgente.

Há um ano atrás...

Não haviam palavras desnecessárias. Tudo o que era dito, era aceite e compreendido com a maior das atenções, como se nada mais houvesse, porque realmente nada mais interessava. Dediquei-te o meu tempo. Fiz crescer algo visível. Tudo porque senti que podia dar a mão a quem precisasse de mim (por muito que não o admitisses). Tudo isso transformou-se no que sabemos.

Hoje, agora, um ano depois, nem tu nem eu temos culpa das minhas angustias, ou da força das circunstâncias, do que me tira o fôlego e o ar que queria ter para respirar (mais). O facto é que também estou neste estar, no meio de um invólucro de situações que, emaranhadas, parecem insolúveis.

A vida é assim, dizes. Então respondo-te que nos resta não nos pontapear-mos uns aos outros porque a solução, embora não saiba onde está, de certo que não está aí. A palavra mais certa que tenho é união e espero de modo sincero que seja essa uma das que governe a minha vida até bem longe.

Passou um ano de muita, muita história para contar no futuro, de lembranças que vão ficar para sempre guardadas em mim, se a minha memória mo permitir, até ao fim. Altos e baixos, sorrisos e lágrimas, escuridão e a mais intensa luz.

Aprendi a dar nós. Porque também se aprende a dar nós. Espero que tenhas aprendido algo comigo.

Agradáveis Descobertas

....
Adivinho a insondável bruma,
inacessível à cintilação dos lugares comuns às aves
perscruto no lume seco o espólio de cinza e instantes de agitação,
descobrindo o vazio onde o corpo e as penas assombram,
perturbam,
a crepuscular luz da noite, que renasce...
e se funde com o reflexo, eco.
(...)
dilui-se assim a loucura,
no pulsar do poema,
ou do amor saturado de voláteis entregas.

(...)
Tudo porque me apeteceu sorrir
e não me apeteceu conter o riso
e nem mesmo me ocorreu desligar
a frequência por onde circulam hoje as minhas ondas cerebrais
e as minhas sensibilidades,
a minha pele...
...
...
Apesar de me considerar de todo fiel aos nomes literários sob os quais mais me detenho, confesso que recentemente surgiu um novo nome, repleto de sentidos, que me levou à atenção da procura e da curiosidade, levada ao patamar da vontade de ler mais e de conhecer a sua visão.

Contrariamente ao que aqui coloquei há dias atrás, desta vez tenho um nome real. Alguém a quem atribuir a autoria destas palavras, tal como das outras que aqui publiquei. A autora destas e de tantas outras palavras, guardadas entre capas negras, é Ana de Sousa (Analu). O seu livro, Fragmentos – Livro I, revela-se através de um conjunto de fragmentos poéticos onde a introspecção e o existencialismo são marca e força motrizes.

Fica a promessa de que levarei comigo, um destes dias, o seu livro e que darei mais que uma breve passagem de olhos pelas páginas, procurando por jangadas ... dando-lhe aí a atenção que verdadeiramente merece.

Agora, embora não mo tenha permitido saber de modo directo, sei qual o rosto por detrás das palavras.

Pensamentos I


A vida é uma encruzilhada de sentidos opostos, estranhos mas sublimemente idênticos. A vida é algo demasiadamente encruzilhado para que se a possa escrever num blog.
Talvez devesse voltar a ser o pseudo-filósofo que nunca fui: aqui, dentro.

(eu, a pensar em querer escrever alguma coisa sobre o que sinto sobre tudo)

Insanidades


No fechar dos olhos... consinto a longevidade dos exíguos corpos, tatuados a frio pela fuligem das ensaiadas fugas na alvez das paredes, rugosas como as planícies, que repletas pelos fragmentados silvos da falta - largados aos molhos como se sementes fossem - oferecem a espasmódica paisagem, que me sufoca... e me traz de volta ao esquecimento da fina areia, segundo a segundo, crescendo no suicídio ou no tempo, mergulhando na ausência dos lírios púrpura com que decoro as fotografias da memória, os instantes... aqueles... em que não te tenho ou em que sinto não me ter no fechar dos olhos... procuro o consolo da maresia, que roçando as frestas das janelas as cobre com o iodo das areias e extingue, poro a poro, as inundadas visões do imenso querer... iluminando no seu percurso as difusas artérias, dando-lhes fogosidade e ardor, num adocicado e submisso tocar, subtilmente indiciando, a melodia rumorosa e lenta das abelhas, ou as quebras dos reflexos das suas asas. A queda.

No fechar dos olhos... depois...
simulo o longo e imperturbável sono da pele, numa simulada tranquilidade do espírito na berma da flor, espreitando a solicitude e o pleno voo do sonho, num leito feito de costume e de hábito, por fazer na manhã e desfeito ao deitar, reinventado em cada toque, pulsar ou olhar e com o cheiro de, apenas... teu, meu, sei lá...lar (elixir possível!.. ou grito!) àquele único lugar... a que só queria regressar continuamente, cumprindo os porquês do tudo que me faz rumar, em círculos, numa ignorada loucura insana... jangada, que me sustêm... ainda assim, livre.

~ Analu

(um obrigado por estar tanto de mim aqui para quem o escreveu, seja lá quem for...)

Universidade de Évora

Proponho uma ligeira alteração ao recente slogan da nossa academia alentejana...

NÃO vale a pena estudar!

É que, tudo aqui me proporciona a pensar assim. Os atrasos, as incompetências, as faltas de responsabilidade, enfim, um ar que se respira bem alentejano, como manda a boa tradição, mas que ao fim de uns tempos começa a provocar nauseas a qualquer aluno que pretenda fazer aquilo para o qual entrou neste mundo... formar-se com as condições adequadas às suas expectativas e à boa perssecussão da sua aprendizagem.

Será assim tão difícil existir uma boa articulação entre os serviços desta academia? É pedir demais que cumpram os prazos, sejam eles referentes ao que quer que seja? Cansa serem apenas os alunos os únicos que tem prazos verdadeiramente reais para cumprir, caso contrário as penalizações estão prontas para se abater sobre nós!

Não existe nada que possa penalizar a má gestão de um órgão que até é importante para o desenvolvimento desta região? Porque não pensam no bem estar dos alunos e apenas se preocupam com verbas? Sei, sabemos que estamos a atravessar um momento difícil a todos os níveis. Mas se se preocupassem um pouco mais em salvaguardar o bem mais precioso de uma instituição, talvez se saísse mais cedo desta crise sem horizonte do que actualmente parece acontecer. O bem mais precioso são os alunos! Se existisse em nós uma maior vontade de levar isto para a frente, tudo poderia ser diferente... mas limitamo-nos a assistir à estagnação do pântano em que se tornou esta academia, porque apenas sentimos que por parte de quem de direito nem sequer existe tal vontade ou apetência...

Senhoras e senhores, deixemo-nos de preciosismos, de luxos fora de moda e façamos algo em prol de uma melhor realidade. Viver de uma ilusão de que está tudo bem e que podemos deixar andar não é solução!

Aos teus 20!

As tuas cores hoje tornam-se um pouco mais brilhantes. É o mostrar de que és capaz e de que tens força.
Só quero que sejas feliz, não interessa de que modo, nem como isso seja proporcionado.
Estou aqui, hoje, ao teu lado. Estarei sempre.

Parabéns, amor!

11... para pensar quase no 12!


Há um ano atrás, pela minha estrada, não sabia o que estava para se cruzar comigo no caminho. Não fazia ideia, tanto que, até ao limite nunca abri os olhos. Hoje, tal como ontem e amanhã, há um ano atrás, mentalizava-me de que iria ser sempre tudo como antes.

Surgiste para me provar que estava enganado. Que, tal como não pensara, também eu podia viver um grande amor.

Textos e Memórias III

"Todo amor começa antes de começar, devia saber. Começa num encontro que se não teve. E quanto mais antes, mais verdadeiro. O nosso encontro foi no eterno, que é onde vale a pena acontecer o que acontece."

"De noite o mar aproveita para ser medonho. Porque o medo é mais feito do possível que do real. Um condenado à forca quando sofre mais não é quando tem a corda no pescoço. Penso eu, que ainda não fui enforcado. E o escuro tem mais carga de possíveis."

Vergílio Ferreira


"Em mim foi sempre menor a intensidade das sensações que a intensidade da consciência delas. Sofri sempre mais com a consciência de estar a sofrer que com o sofrimento de que tinha consciência. A vida das minhas emoções mudou-se, de origem, para as salas do pensamento, e ali vivi sempre mais amplamente o conhecimento emotivo da vida. E como o pensamento, quando alberga a emoção, se torna mais exigente que ela, o regime de consciência, em que passei a viver o que sentia, tornava-me mais quotidiana, mais epidérmica, mais titilante a maneira como sentia.

Criei-me eco e abismo, pensando. Multipliquei-me aprofundando-me. O mais pequeno episódio - uma alteração saindo da luz, a queda enrolada de uma folha seca a pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do muro com os passos de quem a diz juntos aos de quem a deve escutar, o portão entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas aglomeradas ao luar - todas estas coisas, que me não pertencem, prendem-me a meditação sensível com laços de ressonância e de saudade. Em casa uma dessas sensações sou outro, removo-me dolorosamente em cada impressão definida."

Fernando Pessoa

Regressar

Depois de entrar numa nova etapa, diga-se, com mais um peso de tempo para trazer comigo, teve sabor agradável uma partida para respirar outros ares.

Cair de braços abertos no sol, no mar... receber na cara o gelo da noite e o vento que assobia e estremece, todo ele com cheiro a maresia. A branca e ténue luz da lua reflectida na água escurecida pelo anoitecer, o astro claro como um amanhecer de promessas. As gaivotas, expoente de sentimento de liberdade. Longas terras, longos areais, gentes diferentes, provenientes de locais tão distintos, que se cruzam. Tu, comigo, ali.

Olhar todo este cenário tem tanto de aprazível como de avassalador. Por um lado, tudo isto me acalma, me torna sereno ao futuro, me dá força e me faz prometer. Do outro lado, o sentimento de envolvência toma posse de mim e, por momentos, sinto-me como um barco à deriva no meio de uma imensidão indefinida. Nada de negativo. Não convém que se interprete esse acontecer desse modo quase feroz. Mais que ser meu, gera uma força redundante em mim que também me dá vontade para mais. É nessa vontade e nesse querer que procuro manter-me.

No entanto, apesar de saborosa, a partida torna-se efémera ao sentir e o regresso torna-se então na alternativa mais capaz de me manter. Voltar para continuar a escrever, para continuar a sentir e a fazer disso alimento que dure até ao fim dessa nova etapa.

O tempo passa...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
A alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Com uma dualidade de eu para mim...

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

Pára, coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça!

Adaptado de ~ Álvaro de Campos


A velocidade do tempo é infinita, e só quando olhamos para o passado, é que temos consciência disso. O tempo ilude quem se aplica ao momento presente, de tal modo que é insensível a passagem do seu curso vertiginoso. Vá se lá saber porquê! Porquê? Porque todo o tempo passado se acumula num mesmo lugar. Isto é, todo o passado é contemplado e revisto em bloco, numa totalidade, todo ele se precipita no mesmo abismo. Habitualmente não me parecia tão veloz a passagem do tempo. Agora, porém, parece-me incrivelmente rápida, talvez porque passei a dar-lhe atenção e a avaliar o seu resultado em mim.

Hoje é dia de 23. Este ano voou-me das mãos. Foi diferente, em quase tudo. A história parece ter agora, pelo menos, um traçado vislumbravelmente bem delimitado. O futuro é o que de melhor há numa pergunta: o facto dela por si só servir de resposta.

Um obrigado a todos aqueles que de algum modo estiveram comigo. E um obrigado a ti que estás sempre comigo.

9 Palavras, 9 sensações

Calor, ternura, serenidade, emoção, paixão, comprometimento, vontade, segurança e entrega.
(o calor foi depois de te roubar um beijo, sei que devo ser punido pela batota =P ...)
Amo-te

120 anos de Pessoa


A criança que eu fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, já tinha envelhecido, estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. Deitei fora a máscara e dormi no vestiário como um cão tolerado pela gerência por ser inofensivo. E vou escrever esta história para provar que sou sublime. Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.

Entre uma e outra todos os dias são meus.
Há 120 anos, a 13 de Junho de 1888, nascia em Lisboa Fernando António Nogueira Pessoa. Morre a 30 de Novembro de 1935.

8 momentos

Por todos os momentos, por tudo aquilo que me deste nestes últimos meses, por tudo o que fizeste crescer em mim, amo-te. Quero e vou ficar junto a ti. Também tu me orgulhas!

Realidade

«A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios...»


~ Fernando Pessoa

Viver sem Horas

«Vive sem horas. Quanto mede pesa,
E quanto pensas mede.
Num fluido incerto nexo, como o rio
Cujas ondas são ele,
Assim teus dias vê, e se te vires
Passar, como a outrem, cala.»


~ Fernando Pessoa

Encolher de Ombros

Sinto-me às vezes tocado, não sei porquê... Subitamente sinto uma vaga doença, que não se materializa em dor e por isso tende a espiritualizar-se em mim, ou seja, num cansaço que quer um sono tão profundo que o dormir não lhe basta.

Há um sono, esse, da acção voluntária, que não sei de todo explicar e que frequentemente me ataca. Nesses momentos não sou capaz de ter um desejo, uma esperança, qualquer coisa que representasse um movimento. Nessa instância não sou capaz de pensar, de sentir, de querer. E ando, sigo, vagueio junto desse estado de falta de alma: é a sensação de inércia, de uma bebedeira sem alegria, nem nela, nem nos seus pretextos. É uma doença, que nesse momento, não encontra sonho de convalescer.



Nisto está porventura toda uma filosofia, para quem dela pudesse tirar conclusões. Não a tenho. Estou liberto e perdido, sinto, esfrio febre e sou eu.

Sete!

Artes-Planetas-Dias-Arco-íris-Maravilhas-Pecados-Meses (...)

Sete é um numero mágico e especial...
...nisso, como no amor e na vida, basta acreditar!

Textos e Memórias II

"Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de Verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me. Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a face última das coisas e ler aí a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível. Nesta casa enorme e deserta, nesta noite ofegante, neste silêncio de estalactites, a lua sabe a minha voz primordial. Venho à varanda e debruço-me para a noite. Uma aragem quente banha-me a face, os cães ladram ao longe desde o escuro das quintas, fremem no ar insectos nocturnos. Ah, o sol ilude e reconforta. Esta cadeira em que me sento, a mesa, o cinzeiro de vidro, eram objectos inertes, dominados, todos revelados às minhas mãos. Eis que os trespassa agora este fluído inicial e uma presença estremece na sua face de espectros... Mas dizer isto é tão absurdo! Sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim, e uma palavra que o diga coalha-me logo em pedra. Nada mais há na vida do que o sentir original, aí onde mal se instalam as palavras, como cinturões de ferro, aonde não chega o comércio das ideias cunhadas que circulam, se guardam nas algibeiras. Eu te odeio, meu irmão das palavras que já sabes um vocábulo para este alarme de vísceras e dormes depois tranquilo e me apontas a cartilha onde tudo já vinha escrito... E eu te digo que nada estava ainda escrito, porque é novo e fugaz e invenção de cada hora o que nos vibra nos ossos e nos escorre de suor quando se ergue à nossa face.

A mancha da lua fosforesce como o vapor de uma lenda. Um bafo quente sobe dessa água, sagra-me de silêncio como um dedo na fronte. E outra vez agora me deslumbra, em alarme, a presença iluminada de mim a mim próprio, o eco longínquo das vozes que trespassam. Como é difícil, miraculoso, pensá-lo. Quanta coisa aprendi e sei e está aí à minha disposição quando dela preciso. Mas esta simples verdade de que estou vivo, me habito em evidência, me sinto como um absoluto divino, esta certeza fulgurante de que ilumino o mundo, de que há uma força que me vem de dentro, me implanta na vida necessariamente, esta totalização de mim a mim próprio que me não deixa ver os meus olhos, pensar o meu pensamento, porque ela é esses meus olhos e esse meu pensamento, esta verdade que me queima quando vejo o absurdo da morte, se pretendo segurá-la em minhas mãos, revê-la nas horas do esquecimento, foge-me como fumo, deixa-me embrutecido, raivoso de surpresa e de ridículo... E, todavia, sei-o hoje, só há um problema para a vida, que é o de saber, saber a minha condição, e de restaurar a partir daí a plenitude e a autenticidade de tudo - da alegria, do heroísmo, da amargura, de cada gesto. Ah, ter a evidência ácida do milagre que sou, de como infinitamente é necessário que eu esteja vivo, e ver depois, em fulgor, que tenho de morrer. A minha presença de mim a mim próprio e a tudo o que me cerca é de dentro de mim que a sei - mão do olhar dos outros. Os astros, a Terra, esta sala, são uma realidade, existem, mas é através de mim que se instalam em vida: a minha morte é o nada de tudo. Como é possível? Conheço-me o deus que recriou o mundo, o transformou, mora-me a infinidade de quantos sonhos, ideias, memórias, realizei em mim um prodígio de invenções, descobertas, que só eu sei, recriei à minha imagem tanta coisa bela e inverosímil. E este mundo complexo, amealhado com suor, com o sangue que me aquece, um dia, um dia, - eu o sei até à vertigem - será o nada absoluto, dos astros mortos, do silêncio. Mas tudo isto é quase falso, é quase estúpido só de estar a pensá-lo, a dizê-lo, porque a sua evidência é um milagre instantâneo.

A lua subiu ao céu quente, a sua água escorre-me agora pelo corpo. Lavo nela as minhas mãos e é como se me purificasse num tempo anterior à vida, num luminoso halo de coisas por nascerem. Súbito, neste silêncio mineral, a porta da sala range e o vulto da minha mulher, o seu corpo franzino, esfuma-se na sombra. Senta-se ao meu lado, estende os pés ao luar sem dizer nada: ao fim de muitos anos aprendemos a verdade, na aparição da graça, num limiar de presença, antes que sobre a Terra fosse pronunciada a primeira palavra. Tomo as suas mãos nas minhas e no deslumbramento da noite abre-se, angustiada, a flor da comunhão..."

in "Aparição", Vergílio Ferreira


Porque é sem duvida um dos livros que mais fala sobre mim e porque, por isso, me deixou saudade e carinho capazes de o ter na memória e na estante para sempre.

Textos e Memórias I

Quando me decidi pela psicologia, logo de inicio, foi me proposto que escrevesse sobre o assunto... sobre a minha escolha, sobre o porquê de. Isto, há três anos atrás. Desse texto, coloco aqui alguns fragmentos.

«A psicologia é antes de mais, uma constante observação e comunicação, uma aprendizagem através do indivíduo que cada um de nós é, mas também através da colectividade e dos seus contextos. Entendo-a como algo bastante preso à aprendizagem, e não somente ao estudo: estudar é fazer aquilo que os currículos nos determinam, ao passo que aprender é ligar o saber e a ciência à vida e retirar dessa experiência o nosso equilíbrio e bem-estar físico, psíquico, social, enfim, é a procura incessante da estabilidade harmoniosa do nosso comportamento, este que, nem sempre, segue um desenvolvimento linear.»

«No que diz respeito à minha escolha, fi-la preso ás questões da observação, mas também ao motivo que penso fazer parte do comum: a persistente vontade de saber algo mais acerca daquilo que nos move, de tudo aquilo que gera os nossos comportamentos em variadíssimos contextos, tentando com isso, aprofundar o conhecimento acerca de nós próprios. Quem sabe, se, um dia mais tarde, após me conhecer mais aprofundadamente e ter encontrado algures motivos razões que me movem e que me fazem agir de uma maneira e não de outras tantas, talvez venha a ser capaz de desempenhar o papel de um bom psicólogo, apto para deixar que os outros nessa altura usufruam dos meus conhecimentos, para que esses também possam buscar dentro de si aquilo que afinal aqui procuro.»
«Sempre fui um indivíduo, desde bastante novo, atento a tudo o que nos rodeia, nomeadamente e muito em concreto ás atitudes, acções e comportamentos, desde sempre pensado e reflectindo sobre o porquê que subsistia por de trás de cada um deles, bem como das razões escondidas por de traz de diversas motivações. Talvez essa atenção que por vezes poderei não ter concretizado como sendo a minha vocação para a psicologia “a falar mais alto” e tenha realizado ser apenas mera curiosidade, seja a fundamental razão de hoje estar empenhado em ter sucesso nesta união e nesta aprendizagem.»

«Nunca me consideraria um bom psicólogo se entrasse neste universo com o espírito de procura de conceitos e estereótipos, chavões que poderia vir futuramente a aplicar em alguém que solicitasse o meu aconselhamento. É para mim fundamental, em qualquer das diversas áreas de intervenção que existem, a auto-realização para uma posterior tentativa de ajuda a outrem. Portanto a psicologia é para mim, antes de mais, uma procura de mim mesmo. Se o conseguir, calculo que me virei a sentir minimamente apto para ser um bom técnico desta vastíssima àrea.»

Agora, como nessa altura, sinto-me disposto a percorrer a restante caminhada, na esperança de um dia obter dela frutos, relativos à busca daquilo que sou, nunca deteriorando a busca da compreensão psicológica aprofundada da realidade que me rodeia.

Construir em tons de Efémero

CONSTRÓI ao menos
qualquer coisa efémera.
Pois mais não podes ser,
sê ao menos efémero.

Grava os passos na areia,
desenha sobre a estrada
teu vulto.
É melhor do que nada.


A desfazer-te o rastro
virá, o Mar, é certo.
Virá, é certo, a Noite,
beber a tua sombra.

Efémero? Serás...
Mas presente
no Mar, eternamente;
na Noite, para sempre.

Sinto-me infinitamente pequeno neste mundo de grandes esquemas, façanhas e extremistas complicações. Sinto-me pequeno por saber que às vezes me sinto excluído do teu mundo e do sistema que rege o teu universo... tudo é efémero quando queremos, tudo... até sentirmos.

Artistas...

E assim, deste modo, vou pintando o quadro da minha vida. Quadro esse, que nunca estará concluído senão no momento do fim. Até lá, vou mudando as cores, os pincéis com que pinto, o modo como olho sobre o que pinto e até as perspectivas sobre as quais interpreto a vida.

Não Importa...

... o meio para se atingir o fim? Viajar com destino pela terra ou pelo ar, tem o mesmo final.

Ás vezes sei que devia estar na cama a dormir, e fico por aí, porque quando fecho os meus olhos consigo apenas ver luzes distantes... é tudo apenas parte do que sou.

Condensações...

Basta-nos pensar em sentir, para sentir a pensar. Por vezes, não o sabem muitos, viver é não conseguir. Às vezes, temos que parar de andar, para depois ficarmos e, então por fim, partirmos. Cada qual tem o seu alcool, eu para mim tenho-o bastante em apenas existir. Alguns momentos recatado, bêbado de me sentir, vagueio e em simultâneo ando por caminhos certos. Por detrás desse papel, sou igual a mim mesmo, construo-me a mim mesmo às escondidas e tenho o infinito.

Há dias em que o essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar.
Falam-me de civilização, de saber crescer e de maturidade, mas vendo as coisas sem as pensar, apenas vejo que nada disso acontece nas pessoas em meu redor. Dizem-me que todos sofrem, ou pelo menos a maioria, com as situações postas desta maneira, dizem-me que se fossem diferentes haveria menos sofrimento, dizem-me que se fossem como queremos, seriam melhores.

...Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes. Se fossem como queremos, seriam só como as queremos. Ai de todos aqueles que levam a vida a tentar inventar a máquina que produz felicidade, quando ela está ali, ela mesma, mesmo ao lado, no nosso infinito individual.

Apesar de a minha auto-estima não ser das mais elevadas que por aí existam, sinto-me orgulhoso de mim próprio por ter construído algo de significativo com o tempo que até este momento me foi concedido, algo que me faz sentir que valeu a pena e que não se resume pura e simplesmente a um gesto falhado de efemeridade. Viver cada dia como se fosse o ultimo? É, sim, talvez. Mas nunca com a ânsia de trazer como pensamento de que vai ser mesmo o ultimo. A todos os que o fazem, a todos esses que vagueiam realmente bêbados de pensamento e de gestos, fica o meu mais profundo lamento por saber que não conseguem ter o que há de mais elementar em nós: a força de vontade e o lutarmos verdadeiramente por sermos alguém.

Tempo, esse malandro!

Olho o horizonte e o carrocel do pensamento começa uma nova volta que me traz à consciência que o tempo não para: mais, anda depressa! Passaram cinco meses desde que tudo começou.

momentos que quero viver como se fossem, agora, ainda, os primeiros, os mais puros, os mais sentidos. Sinto-o. Sei, sabes, sabemos que sinto. Que sentimos. Muitos outros, novos, cheios de vontade, estou (a eles) também de braços abertos.

O saber que alguém é de alguém? Bem, preenche-me antes a alma o saber que te amo com tudo o que de melhor sei dar. Com a vontade de quem fez do sempre a palavra chave de uma relação. É no fazeres total e completamente parte de mim e dos meus dias que busco alimento incessante e que todos os dias tenho vontade de pensar «SEMPRE!».

O passado, embora tenha passado, tem muito mais que memórias prontas a serem guardadas. Lembro-as todos, senão quase todos os dias, porque também isso me traz um sorriso aos lábios, e uma profunda vontade de continuar contigo, ao sabor desse malandro, do tempo que nos uniu.

Amo-te.

Um Acordo

Fiz um acordo cerrado com o tempo. Hoje sei que o impossível é uma questão de tempo até acontecer. O meu impossível era realmente impossível, improvável, inexequível, demasiadamente extenso para caber no rebate da fugacidade da vida... e pergunto-me: porque não poderá isso ser extensível ao impossível como senso generalizado?

Tenho saudade de viver coisas que ainda vou viver. Como? É aqui que o tal acordo entra. O meu acordo com o tempo foi o de que sempre irei amar com a força desse sol quente, e que para sempre, também, irei querer ver ao meu lado os teus olhos que vi tornarem-se doces perante os meus, tal como aquelas noites de verão: doces, quentes e arrebatadoras.

Não vivo de saudade. Não, não é isso. Vivo vivendo o hoje, mas também um pouco do amanhã. Sei que a maior certeza que temos é o amanhã. O mar, esse, vai estar nos arredores da mão que escolhi para trazer apertada à minha. E o acordo definitivo vai resplandecer, todos os dias, com mais um nascer de sol. Sempre, para sempre, até ao meu Invernecer definitivo, que espero, esteja longe, pois só recentemente esta ex-árvore de tronco cinzento e abandonado começou a fazer nascer cores de esperança, felicidade e profunda satisfação.

Cansaço, Sono e Sonho

«Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida. O maior criminoso, o mais fechado egoísta passa a ser sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta.»

~ Bernardo Soares

O sono que cai sobre mim, de vez em quando é recebido como uma tirania gentil, que recebo sem dar conta do poder e da forma como me invade. Isto, porque, nesse estado o mundo fecha os olhos e na manhã seguinte tem a capacidade para me fazer encarar tudo com as cores tingidas com um tom novamente mais forte. Mesmo que isso não seja o suficiente para que tenha forças para esse novo dia, pelo menos serve de mote, de alento, dando-me energia.

Não é somente o cansaço que leva ao sono, esse é apenas a porta de entrada de algo mais figurado do que ele, por si só. O sonho é a maior recompensa do sono, tirano que, ainda assim, me dá esse grande dom como espécie de recompensa pela sua passagem e apagão do meu pensamento. O requinte detalhado deste nobre leva, por último, a que me recorde de praticamente todos os meus sonhos quando acordo novamente, passando essas histórias a figurar num passado recente, na minha memória, muitas vezes para sempre.

(...) Enigmas?

Uma das mais recorrentes causas de separação é, sem dúvida, a (...). É uma das maiores causas de problemas. Mas muitas vezes não se olha para a total extensão deste problema.

(...) e arrependimento. A (...) é vulgarmente abordada com um olhar egoísta . Isto é, a quem se (...). Mas quem (...) entra também numa espiral complicada e perigosa. Há situações que levam a (...), estupidamente. Depois o embaraço ou simplesmente a vergonha leva-nos a (...) para ocultar uma anterior (...). Depois, a vida complica a cada hora. O medo de ser descoberto, a angustia de esconder algo a alguém que se ama, o constante sobressalto e o medir as palavras faz com que, quem vive tudo isto, viva numa constante angustia.

Há constantemente uma sensação de vivermos uma vida dupla. Em casos extremos o próprio vê-se como outra pessoa, tentando imaginar uma vida diferente fantasiosa, levando a mais (...) e fugas.
Uma (...), por mais inocente que pareça, é sempre demais perigosa. Mesmo as consideradas (...) «brancas» ou de «piedade» podem degenerar em perigosas espirais de (...), arrastando-nos e prendendo-nos a uma realidade falsa.

Pensei bem na minha vida, no que queria realmente e em definitivo dela. Olhei em redor e vi como podia evitar ou resolver questões antigas. O diálogo é fundamental.

Vivi dias de felicidade contigo nestes dias. Apesar disto, que ali falo em cima, tudo foi perfeito ao teu lado. É agora, é desta, é sim, agora sim chegou o momento de viver tudo como sendo eu, sem mais nada como entrave ou bloqueio do que quer que seja. O que era mau e passado, passou e terminou.

Ponto final.

Ser alentejano

Portugal nasceu no Norte, mas foi no Alentejo que se fez homem. Guimarães é o berço da nacionalidade e Évora é o berço do Império Português, veja-se em Vasco da Gama o exemplo.

Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. Mas os alentejanos não servem só as grandes causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Daí a resposta de Eva a Adão quando este, intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não tinha: «Tem tempo e tu tens pressa.» Quem anda sempre a correr, não chega a lado nenhum. E muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é um problema que os alentejanos, graças a Deus, não têm. Até porque os alentejanos e o Alentejo foram feitos ao sétimo dia, precisamente o dia que Deus tirou para descansar.

Adaptado de autor desconhecido

É por isso que, sempre que passeio por aí numa noite quente de verão ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, me orgulho de ser daqui, de pertencer aqui e de deste sitio ser, também, fruto. Alentejo é uma palavra mágica que começa no Além e termina no Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal. O Alentejo molda o carácter de um homem, a solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a paciência do monge; as temperaturas e a agressividade da campo dão-lhe a resistência, a rusticidade, a coragem e o temperamento. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.

Há a aprender

Algo do que, em mim, mais me causava motivo de frustração, era a minha intima agitação de suspeitar que os meus desejos nunca eram alcançáveis.

Contigo aprendi, também, que coisas que julgava não terem sido feitas para as viver, também eu posso passar por elas, sim, que eu também posso vivê-las à minha maneira e que, sim, isso me provoca a enorme felicidade e satisfação que é passar por elas. Esta é uma aprendizagem que se tem feito todos os dias, todos aqueles que passo ao teu lado, todos aqueles em que me fazes acreditar em mim e naquilo que existe entre nós, e, ainda, de modo tão importante e inequívoco: no futuro. De uma vez por todas, deixei de crer que na vida tudo o mais são sonhos, de que tudo o que me transcendia não seria para lhe tocar. Ensinaste-me esse verbo tão essencial quanto o ar que respiro, a acreditar.

Não desejo nada do que fica mais além, tenho em ti tudo o que quis antes, agora e depois. Já não sei andar só pelos caminhos, porque simplesmente já não posso andar só. Um pensamento visível que é a tua companhia, mesmo distante, faz-me andar mais depressa. Arrumei a minha vida, pus prateleiras na minha vontade e acção. Quero fazer isto agora, como antes, isso sim, restando do antes aquela vontade, com o mesmo resultado.

Sempre que sinto, ou algum dia sinta que estou perto do meu fim, este último em termos simbólicos, terei sempre continuidade em ti porque me completas. Assim, talvez nunca me perca, talvez nunca acabe, porque em ti verei sempre maneira de retornar a mim, fazendo desse ciclo um continuar dos meus dias, por toda a minha vida, junto ao grande amor da minha vida que se vê, aos meus olhos, em ti.

Passar das Horas

Sim, passava aqui frequentemente, por toda esta cidade, há vinte anos... Nada está mudado — ou, pelo menos, não dou por isto — Há vinte anos!... O que eu era então! Ora, era outro... Há vinte anos, e as casas não sabem de nada... Tento reconstruir na minha imaginação quem eu era e como era quando por aqui passava. Há vinte anos... Não me lembro, não me posso lembrar. O outro que aqui passava, então, se existisse hoje, talvez se lembrasse... Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro de que esse eu-mesmo que há vinte anos passava por aqui!

Sim, o mistério do tempo. Sim, o não se saber nada. Sim, o termos todos nascido a bordo. Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer... Podemos imaginar tudo do que nada sabemos. Houve um dia em que subi esta rua pensando, hoje, descendo esta rua, quando muito, nem penso...

Sentir tudo de todas as maneiras, viver tudo de todos os lados, ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo. Realizar em mim toda a humanidade de todos os momentos num só momento difuso, profuso, completo e longínquo. Sentir tudo de todas as maneiras, ter todas as opiniões, ser sincero contradizendo-me a cada minuto, desagradar-me a mim próprio pela plena liberalidade de espírito.

Adaptado de Álvaro de Campos.

Fui educado pela Imaginação, viajei pela mão dela sempre. Pensei sempre por tudo o que vivi e todos os dias têm essa janela por diante, todas as horas parecem minhas dessa maneira, dessa minha, única, subtil e colossal Embriaguez de Pensamentos.

Nietzsche e a Origem da Tragédia

A Origem da Tragédia, vê no seu horizonte a contraposição entre o espírito apolíneo e o espírito dionisíaco na cultura grega e, através dela, na cultura ocidental e visa acima de tudo a valorização dessa oposição colaborante entre esses dois espíritos, que em conjunto constituem a sabedoria trágica. Em simultâneo, pretende transportar essa forma dupla de encarar a realidade para a cultura contemporânea. Segundo o autor, perdendo a tragédia, o homem perde inevitavelmente a fé ou crença na sua própria imortalidade.

Nietzsche, mediante este recurso à compreensão do espírito da antiga tragédia grega e do seu próprio declínio, procura essencialmente explicar as causas da decadência da cultura ocidental contemporânea que é, para este filósofo, a representação cabal de um estado de decadência inevitável e irreversível, decadência essa assente em três pilares fundamentais: a religião e os seus valores, que, nascendo do medo e sendo uma vingança dos fracos sobre os fortes, acaba por matar o ser humano que há dentro de nós; a moral, que cerca a nossa maneira de ser e de viver, que é «contra-natura» e que impõe leis contra os instintos primordiais do homem; finalmente a razão, assente na tentativa de endeusamento da ciência (que é vista abaixo da óptica da arte e da vida), positivismo, enfim, no estatismo do ser e consequente rejeição do instintivo e do biológico.

Desvaloriza a cultura grega socrático-platónica, de cariz optimista-racionalista e toda a cultura ocidental que nela radica e assenta. Questiono-me sobre se não poderemos ver em Nietzsche um decadente que não suporta a decadência e que em alternativa procura ser auto-terapeuta, não esquecendo obviamente que, numa concepção axiológica, o niilismo assume um autêntico efeito de «aspirina», na lógica de decadência?

Defende-se um regresso do homem ao Uno Primordial, como único meio de sair do sofrimento imposto pela individuação em que se encontra, em cujo ponto de chegada está a sabedoria ou espírito trágico, sendo ao mesmo tempo concretizado fisiologicamente na criança, símbolo da ingenuidade e acima de tudo, da possibilidade de começar de novo e de pôr em prática a plenitude das suas capacidades criativas. Mas sendo um constante regresso, não se estará a condenar o progresso, mesmo o progresso baseado em «dar um passo atrás para em seguida dar dois à frente»? Não negando que é importante começar de novo e receber um novo impulso, este eterno começar não limita as perspectivas de mudança e a natural ambição do ser humano? Não matará a acção? A abordagem do regresso não deveria ser feita segundo uma espécie de libertação mais sábia e não ingénua?

Nietzsche colocou um ponto de interrogação no caminho percorrido pelo homem europeu, desde a antiguidade clássica até ao tempo moderno. Apela a uma negação total do passado e a uma indispensável reconversão radical. Por este motivo, assume-se por inteiro: «eu não sou um homem, sou dinamite».

O modo como mostra o seu pensamento é ambígua porque ao longo da obra, pois parece não existir um encadeamento lógico das ideias, dentro da formação e progressão de um pensamento, de uma doutrina. Este saltitar constante e as mudanças repentinas de posição podem pôr em causa a solidez dos seus pensamentos. Pelo contrário, o seu pensamento é intuitivo e não conceptual, pois não utiliza meios do pensamento abstracto do ser, uma vez que este pensa por rasgos, repentismos e não por uma forma laboriosa de exposição abstracta.

Nenhum filósofo escondeu tanto as suas reflexões sob tantos sofismas, como o fez Nietzsche. Contudo, também a tragédia se define mais pela natureza das questões que coloca, do que pela natureza das respostas que fornece e, neste sentido, Nietzsche materializou o verdadeiro espírito da tragédia.

Texto parcialmente retirado de um trabalho do meu 12ºano, com saudades do Prof.Constantino.

Subjectividade(s)

Existem aqueles que levam a vida a olhar para baixo, como se não houvesse céu, são os que reclamam de tudo e não se preocupam com nada senão consigo mesmos. Há os que olham demasiadamente para trás, saudosistas, lamentando o tempo que passou e que não volta, querendo dar arranjo a algo que ficou mal concebido. Existem ainda os que olham para os lados, numa eterna e constante comparação com os que o rodeiam...
(Existo) aquele que vive em constante olhar fitado para cima, à procura não se sabe bem do quê, de uma inspiração. Para a frente, quando procuro construir um futuro melhor, para os lados, quando procuro consolidar amizade(s) e relações, para trás, quando procuro aprender algo com o passado, e também para baixo quando procuro o meu desenvolvimento pessoal e, desse modo, a concretização de todos os outros aspectos. E ser feliz.

Não me devo esquecer de que quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade.* Por isso mesmo, resta-me tentar definir-me dentro da minha própria subjectividade, para que, para além de me poder distinguir dos demais, me sinta capaz de tornar reais, presentes e definitivos aqueles que me são tudo. A meu ver, é a nossa capacidade de discernimento, escolha e subjectividade que nos torna verdadeiramente dotados de essência.
*frase de Fernando Pessoa

Querer é Poder

Nesta noite, eu, envolto em papelada, mas, cheio de saudades... só penso em ir passear contigo. Quero dar-te a mão e andar por aí ao teu lado! O meu amor por ti não para de crescer. Quero-te num abraço. Quero-te ao meu lado, quero tanto partilhar tudo o que é meu contigo, quero sentir que o mesmo é o que queres em relação a mim... ambiciono construir, construir-mos a nossa vida, juntos.

Amo-te com tudo o que tenho para te dar.
Quero amar-te e, posso amar-te, para sempre.

Amar a Dois

Roo as unhas e tento acomodar-me na tua cadeira. É grande e faz com que eu dê voltas e voltas em torno de algo que não é a minha cabeça.

A música toca. Procuro, com muito esforço, escrever algo de que gostes, algo que sirva para justificar um amor que só tem aumentado, que é sincero e que, a cada dia que passa, preenche mais e mais este meu pequeno coração de pedra... Nada justifica tal coisa, o amor não tem justificação. Por isso, olho-te pelo cantinho dos meus óculos, digo em silêncio que Te Amo, termino o texto e... afundo-me na tua cadeira.
Este amor é tão nosso...

Eu, Denise

Licenciatura de (e para) Loucos

Um dia este curso acabará por me levar à loucura. Digo-o porque o sinto, mas no fundo recheado de um sentido de humor acutilante... Ou se calhar só escrevo isto porque apenas já o estou!

Por vezes revolta-me um pouco e retira-me aquela motivação pessoal que tanto gosto de sentir no que faço, o facto de tudo isto ser baseado sob um processo no qual avaliam competências através de puro «decoranço». Não é nem justo, nem enriquecedor, quanto menos formativo!

Falam tanto de que o ensino não deve ser isto, que não é assim que adquirimos competências, mas no fundo, é sempre tudo a mesma coisa, nada muda...
Pode ser que um dia, um dia quando já não precisar de decorar sintomas ou outros pormenores afins, venha a aprender e a relembrar por mim mesmo aquilo que a minha motivação me permita. Espero, ao menos, que se revele um «mal necessário». Pelo menos é Psicologia, e isso faz me continuar. Quero-o.

(cansado de tanto papel escrito à minha frente e a precisar de férias)

(Re)Descobertas

«Porque eu te queria, porque eu queria estar sempre ao pé de ti, porque eu tinha vontade de te sentir a tocar-me...»

«E ia-te buscar, e estávamos, e ia-te deixar. Abalava a pensar em ti, adormecia contigo na cabeça, acordava preocupado sobre como estavas em mais um amanhecer... estava apaixonado, loucamente apaixonado e não tinha noção disso.»

(...) Palavras ditas, confessadas, hoje, em noite que se relembra o passado recente de há três meses atrás, onde tudo o que quis foi o que continuo agora a ter e sentir: a tua presença, o teu amor e tudo o que me proporcionas.

Amo-te mais do que tudo na minha vida, quero mais, sempre mais de ti. Quero-te ao meu lado, sempre.

Há amores assim!


Há amores assim, que nunca têm início, muito menos têm fim.

Na esquina de uma rua, ou num banco de jardim, quando menos esperamos, há amores assim. Não demores, enquanto espero o céu azul cai a chuva sobre mim. Não me importo com mais nada, se és direito ou o avesso, se tu fores o meu final eu serei o teu começo. Não vou ganhar, nem perder, nem me lamentar.

Estou pronto a saltar de cabeça contra o mar. Não vou medir, nem julgar. Eu quero arriscar. Tenho encontro marcado sem tempo nem lugar. Um amor nunca se escolhe, reconhecerei em ti meu amor, a minha eternidade.

É que na verdade a saudade já me invade mesmo antes de te alcançar. É a sede que me mata ao sentir o rio abraçar o mar.

A ti.
Adaptado de «Donna Maria - Há Amores Assim»