Pense, caro senhor, no mundo que traz dentro de si e chame o que quiser a essa forma de pensar; seja isso uma recordação da própria infância ou talvez a saudade do próprio futuro — esteja apenas atento àquilo que está a surgir dentro de si, e coloque-o acima de tudo de que se aperceba à sua volta.


O que acontece dentro de si merece todo o seu amor, é isso que deve trabalhar sem desperdiçar demasiado tempo ou energia a tentar explicar a sua posição aos outros.

Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta

A grandeza que nos coube foi essa ao menos de saber. Devemos tentar conquista-la até onde ela se anuncia. E se o absurdo é a face desse ténue limite, assumo-o como quem não rejeita nada do que ainda sou eu. A cobardia não está em assumir esses limites, mas em recusa-los.

O «para quê» que nos antepõem todos aqueles que se dizem sensatos implica um utilitarismo de todo o instinto prático e animal. Mas somos nós contra tudo o resto que temos o fulminante poder de sabermos quem somos. É aí que cabe a nossa condição, é aí nesse lugar que cabe a nossa interrogação incrivelmente fascinante e sem limites.


O dilema consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, ao lhes propor a nossa personalidade.

O que sinto, na verdadeira substância com que o sinto, é absolutamente incomunicável e quanto mais profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é. Para que eu possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, que dizer tais coisas como sendo as que eu sinto, que ele, lendo-as, sinta exactamente o que eu senti.

Afinal o que tenho que fazer é converter os meus sentimentos num sentimento humano típico, ainda que pervertendo a verdadeira natureza daquilo que senti. Delírio? Não.



De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.
Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.

É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-Ihes os actos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demónio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consume tudo. Deixa-nos nus até de nós.

Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.

(com um brilho nos olhos) - Bernardo Soares, in Livro do Desassossego)

Porque às vezes é bom recordar...


Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela?
Põe-na lá.
Vergílio Ferreira