De que doses de imaginação se faz uma vida para se conseguir compensar o que não se realiza?
Todos sabemos e nunca ninguém sabe. Projectamos ao milímetro uma reacção a ter, uma ofensa em sentido de vingança a desenvolver, uma desconsideração a menosprezar e uma conquista a fazer.
E depois?
Depois sai sempre outra coisa. Nem nos vingamos porque tropeçámos numa fraqueza, nem menosprezámos a desconsideração porque nos menosprezaram o nosso menosprezo, nem conquistámos nada porque «amanhã é que é».
Mas falhada a nossa reacção, logo pensamos de novo em trazê-la ao real e com acréscimo de efeito – até que o tempo tudo decida por nós. E acabamos por achar que decidiu bem, porque o mais fácil de resolver é sempre o não resolver.

«Não és normal» - nunca o pensaste? Isso é te uma inferioridade (ou uma superioridade?). Como em tudo o que é diferente, cultiva a tua diferença. Mas uma diferença pode ser negativa, parece ser esse o drama. Porque a tua diferença vai além e fica aquém dos outros. Tu querias ser os outros no em que lhes és inferior e ser diferente no em que lhes és superior. Mas toda a superioridade se paga. Paga e não reclames por isso.
(...)

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!


Génio?
Neste momento cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
(...)

(Come chocolates, pequena; come chocolates!)
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
(...)

(...)

Álvaro de Campos ~ Tabacaria (fragmentos)

Escusado seria dizer que ninguém que participa num delírio o reconhece como tal. Mesmo assim, urge admitir que tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo.