O pensamento divergente sobre o tema leva-me a ter algo de antagónico em mim quando reflicto sobre ele. É verdadeiramente algo com o qual não sei lidar. Ninguém sabe, mas, seguramente, que me parece que o sei ainda com menor intensidade...

O que mais me intriga e dói na nossa morte, é que nada se perturba com ela na vida normal do mundo. O que mais podem fazer é tomar nota do acontecimento e recomeçar.

Quando alguém morre, a vida continua natural como se quem existisse para morrer fossemos apenas nós. Porque tudo converge em nós, em quem tudo existe, e assim nos inquieta a certeza de que o universo morrerá connosco. Mas não morre. O universo está-se nas tintas para que morramos, ou não. E isso é que é incompreensível - morrer tudo com a nossa morte e ficar tudo perfeitamente na mesma.

A morte não é um acontecimento da vida. A morte não pode ser vivida. Caso se compreenda por eternidade não uma duração temporal infinita, mas a intemporalidade, quem vive no presente é quem vive eternamente. A nossa vida é tanto mais sem fim quanto mais o nosso campo de visão não tem limites.

É irreversível a «bi-polaridade» na qual se gera esta ampla redundância no meu pensamento. Leio-o do fundo para a superfície, como que se da morte ecoassem pensamentos para a vida, numa espécie de mecanismo de defesa rudimentar que me impele a ser como sou, assim como todos, permitindo-me, afinal, viver.
O peso da dor nada tem que ver com a sua qualidade. A dor é o que se sente, mais nada. Desisto de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exactamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida da importância que em cada momento teve. Como se eu jamais tivesse envelhecido. Exactamente porque só é fútil e ingénua a infância dos outros - quando se não é já criança.

Estranho poder o da lembrança... quase tudo o que me ofendeu me ofende, quase tudo o que me sorriu sorri. Nada era como eu tinha fantasiado e não sabia porquê. Parecia-me que havia sempre outras coisas à minha volta que eu não supunha, e que essas coisas tinham sempre mais força do que eu julgava. Eu e as minhas escolhas, para mim, não tinham mais que a importância que eu lhes dera.

Da pressão exterior, cada um de nós podia refugiar-se no mais fundo de si. Nenhuns sonhos se negavam ao apelo da nossa sorte, aí na nossa íntima liberdade...

13

Vivo, porque espero. Lembro-me, e existo.
Tudo se funde e confunde. Ainda continuo aqui.

Factos

Engana-se quem pensa que num dia livre não há espaço para pensar.

Esquece-se quem fala das fartas festanças, pois, quando tentamos transformar a nossa existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão... muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que termina na mentira reciproca.

Mente quem acredita que em dia de comemoração apenas há alegria.

É-se vazio, quando se acredita que tudo se resume ao não-querer-pensar e, chega-se ao limite, quando tal se transfere e se transforma, em definitivo, no acreditar de todos e de ninguém.

Há sempre, sempre algo a retirar. Nunca, nunca se retira nada.

Mas, situado no preciso ponto sublime de tudo isto... há sempre espaço para um grande motivo de orgulho...