Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Bem, na verdade já não é bem um evitamento porque já nem me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear. Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos de tudo e mais qualquer coisa que ainda esteja por existir.

Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos e por todos os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras, de que podem ser, se ainda não são, os melhores.

Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?


Alentejo, Alentejo... Seja onde for, quanto mais a sul me vejo menos eu sinto esta dor.

Vou no espírito do vento, parto de manhã deixando atrás o desalento e o tormento de um não.

Não me venhas com lamurias, não te escondas num lamento. O tempo passa a voar.

Não me contes mais histórias, dessas de adormecer, a minha ainda está só no amanhecer.

Alentejo meu desejo, onde eu hei-de ser... Logo à noite dá-me um beijo, que a vida são dois dias e passam a correr...

Passam a correr e não param ao passar...

Adaptado de Xaile

Não quero pensar sobre amanhã. Não quero recordar-me do que foi ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. É tudo tão efémero, mesmo o que se pensa para amanha é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. O tempo não tem futuro nem passado, foi apenas o que dele escolhi no meu mais absoluto e intimo sonho.

Não quero pensar para amanhã na urgência de ser agora. Mesmo logo ao final da noite, à tarde - que seja - será sempre muito tarde. Tudo o que sou, sou-o em mim para ser. Tudo o resto é provável insensatez.

Não quero esperar, quero ser agora.

Leio papeis, livros, jornais... o futuro pode bem ser o embrulho que fizer deles e não do papel urgente da retrete quando não houver outro.


Hei-de esculpir o futuro ao jeito do criador que extrai a obra de mármore a golpes de cinzel. E caem uma a uma as escamas que escondiam o rosto do deus.
E os outros dirão que aquele mármore continha esse deus, acusando-o de que apenas o havia encontrado - para esses, o seu gesto não passava de um meio.
Mas eu cá digo que ele não calculava, ele forjava a pedra. O sorriso do rosto está muito longe de ser feito de suor, de faíscas, de golpes de cinzel e de mármore. O sorriso não é da pedra, mas sim do criador.
Antoine de Saint Éxupery, in «Cidadela»