
Pertenço a uma parte de geração, onde de modo constante e quase impensado se perde o respeito pelo passado e toda a crença no futuro. Vive-se de presente e com a gana e gula de quem não tem outra casa senão a dele. E, como é nas nossas sensações, sobretudo nos sonhos, sensações inúteis apenas, que cada vez mais se encontra um presente (que não olha nem para passado nem para o futuro), sorri-se à vida interior e existe um desinteresse sonolento da realidade quantitativa e qualitativa das coisas.
Certo, no meio deste embuste emocional, é que as coisas que mais amamos só têm o seu pleno valor reconhecido quando são, de modo simples, sonhadas.
As pessoas perdem cada vez mais toda a habilidade, inata ela mesma, de amar. Cansam-se de palavras e de gestos, ignoram momentos simples... Aliás, penso que a própria ideia que concebem de que são amadas as cansa, as fatiga, quase até ao limite.
Não gosto de espectáculos, são a imitação mais degradada do que havia de ser apenas matéria de sonhos. Adoro a continuidade, embora discreta, mas sentida. Adoro o sentir que amanha ainda tudo existe, o sentir que existe futuro construído a partir de cada pedaço de cada episódio do amanhã.
A propósito, ou não, disto, o Fernando, o Pessoa, disse, com razão que: «Não podemos comer um bolo sem que o percamos.» Todavia nem tudo na vida são bolos, nem tudo na vida tem que ser levado por essa efemeridade rápida de pensamentos e vivências, que vejo como algo comum e gasto... não me digam que nao há por aí algo que não desapareça, assim, do nada, algo com o qual possamos e queiramos sentir durante muito tempo, algo que nos faça sentir vivos!
Há por aí tanta verdade perdida, esquecida de modo «pouco esquecido», sim, porque todos sabem que elas existem, ali, mesmo ali. Mas ignoram, ignoram sempre, só porque nos seus julgamentos pessoais concretizam, errada e estupidamente, que esse é o caminho a seguir, porque não existe mais nenhum!...
Mas...! -Pensamento invasivo, daqueles que me obrigam a pensar- Porque penso eu nos outros? Ou, porque me obrigam eles a pensar sobre isto? Afinal eu quero dar continuidade, viver o que sinto hoje, sempre, para que amanha possa sentir o mesmo e cada noite que me deito, bem como em cada manhã que acordo, sinta que tenho um projecto, uma vontade... essa vontade, és tu. Essa vontade não se há de esvanecer, só pelo facto de que tudo o que tem um principio tem um fim, frase, ou pensamento como queiram, que detesto sentir e ouvir ser dito! Não sou assim, não faz parte da minha essência, não, não!! Sinto-me cada vez mais afeiçoado a ti, sinto toda esta vontade de ti, no simples facto de querer partilhar tudo contigo, de querer estar ao teu lado, de querer continuar isto por muito, muito tempo.
O mundo é um local estranho, mas, «enquanto o mundo lá fora corre», quero viver o que sonhei, contigo!