A Origem da Tragédia, vê no seu horizonte a contraposição entre
o espírito apolíneo e o espírito dionisíaco na cultura grega e, através dela, na cultura ocidental e visa acima de tudo a valorização dessa oposição colaborante entre esses dois espíritos, que em conjunto constituem a sabedoria trágica. Em simultâneo, pretende transportar essa forma dupla de encarar a realidade para a cultura contemporânea. Segundo o autor,
perdendo a tragédia, o homem perde inevitavelmente a fé ou crença na sua própria imortalidade.
Nietzsche, mediante este recurso à compreensão do espírito da antiga tragédia grega e do seu próprio declínio, procura essencialmente explicar as causas da decadência da cultura ocidental contemporânea que é, para este filósofo, a representação cabal de um estado de decadência inevitável e irreversível, decadência essa assente em três pilares fundamentais: a religião e os seus valores, que, nascendo do medo e sendo uma vingança dos fracos sobre os fortes, acaba por matar o ser humano que há dentro de nós; a moral, que cerca a nossa maneira de ser e de viver, que é «contra-natura» e que impõe leis contra os instintos primordiais do homem; finalmente a razão, assente na tentativa de endeusamento da ciência (que é vista abaixo da óptica da arte e da vida), positivismo, enfim, no estatismo do ser e consequente rejeição do instintivo e do biológico.
Desvaloriza a cultura grega socrático-platónica, de cariz optimista-racionalista e toda a cultura ocidental que nela radica e assenta. Questiono-me sobre se não poderemos ver em Nietzsche um decadente que não suporta a decadência e que em alternativa procura ser auto-terapeuta, não esquecendo obviamente que, numa concepção axiológica, o niilismo assume um autêntico efeito de «aspirina», na lógica de decadência?
Defende-se um regresso do homem ao Uno Primordial, como único meio de sair do sofrimento imposto pela individuação em que se encontra, em cujo ponto de chegada está a sabedoria ou espírito trágico, sendo ao mesmo tempo concretizado fisiologicamente na criança, símbolo da ingenuidade e acima de tudo, da possibilidade de começar de novo e de pôr em prática a plenitude das suas capacidades criativas. Mas sendo um constante regresso, não se estará a condenar o progresso, mesmo o progresso baseado em «dar um passo atrás para em seguida dar dois à frente»? Não negando que é importante começar de novo e receber um novo impulso, este eterno começar não limita as perspectivas de mudança e a natural ambição do ser humano? Não matará a acção? A abordagem do regresso não deveria ser feita segundo uma espécie de libertação mais sábia e não ingénua?
Nietzsche colocou um ponto de interrogação no caminho percorrido pelo homem europeu, desde a antiguidade clássica até ao tempo moderno. Apela a uma negação total do passado e a uma indispensável reconversão radical. Por este motivo, assume-se por inteiro: «eu não sou um homem, sou dinamite».
O modo como mostra o seu pensamento é ambígua porque ao longo da obra, pois parece não existir um encadeamento lógico das ideias, dentro da formação e progressão de um pensamento, de uma doutrina. Este saltitar constante e as mudanças repentinas de posição podem pôr em causa a solidez dos seus pensamentos. Pelo contrário, o seu pensamento é intuitivo e não conceptual, pois não utiliza meios do pensamento abstracto do ser, uma vez que este pensa por rasgos, repentismos e não por uma forma laboriosa de exposição abstracta.
Nenhum filósofo escondeu tanto as suas reflexões sob tantos sofismas, como o fez Nietzsche. Contudo, também a tragédia se define mais pela natureza das questões que coloca, do que pela natureza das respostas que fornece e, neste sentido,
Nietzsche materializou o verdadeiro espírito da tragédia.
Texto parcialmente retirado de um trabalho do meu 12ºano, com saudades do Prof.Constantino.