Negações à parte, depois da falência de todas as formas de uma mais que possível mas aparentemente improvável pacificação, o homem descobre, enfim, que está só.

Todos os brinquedos da nossa infância distante jazem por terra com as tripas de fora, e depois do prazer com que os esventrámos, olhamos, aterrados, por não termos mais brinquedos para esventrar...

As horas ressoam no céu deserto onde só o silêncio respondeu ao vosso pobre pavor.



Lembro-me perfeitamente, meu amigo, de quando pela primeira vez vi o Templo de Diana. Ignoro ainda se o monumento se alinha entre as belas obras de arte, essas perante as quais estamos todos autorizados a comover-nos. Ignoro-o, porque hoje sei que o milagre pode surgir quando menos o suspeitamos: uma frase musical de um tocador ambulante, o assobio de quem passa, um talo de erva que irrompe de uma juntura de pedras, podem alvoroçar-nos como a mais pura e evidente aparição de beleza. Subi a rua que vai da Praça, mal reparei então na Sé, obscurecida a um canto, cheguei enfim à acrópole onde se ergue o Templo.

Catorze colunas nuas levantam-se para os astros banhadas da lua quente que iluminava o largo. Viam-se as estrelas por entre elas, o espaço habitava a sua irrealidade, irradiava essa mão de pedra à sua infinitude. Suspenso de memória e de uma obscura interrogação, ali fiquei algum tempo, tocado dessa indistinta surpresa que é o halo do limiar da vida, a anunciação das origens. Tenho visitado o Templo a outras horas de lua; mas jamais o alarme me visitou assim puro e fulminante, talvez porque o sabê-lo, o procurá-lo, lhe velava uma pouco a face - talvez porque ele só reconhece a verdade de quem não está prevenido, de quem vem desarmado dos combates diurnos.

Vergílio Ferreira, in Cartas ao Futuro


Como se o vento nelas batesse, e fossem nuvens todas as ideias com que damos algum sentido à vida, todas as ambições e crenças em que fundamos e continuamos a fundar a esperança na continuação dela, se dissipam, farrapos do que não foi nem poderia ser.

Ás vezes está atrás de nós, visível só quando nos não voltamos para ver, e é a verdade toda que se mostra aos nossos olhos como horror de não a conhecermos.

Esse horror que hoje me detém é algo mais rompente. Torna-se vontade de não querer ter pensamento, desejo de nunca ter sido nada, num desespero estúpida e lamentavelmente consciente. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na espécie de cela infinita em que nos movemos, sempre de canto em canto, sem que nem por isso nela existam sequer janelas gradeadas.

Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo? Afinal, o que querem realmente as pessoas da vida sem lhe saber a verdade?


Pense, caro senhor, no mundo que traz dentro de si e chame o que quiser a essa forma de pensar; seja isso uma recordação da própria infância ou talvez a saudade do próprio futuro — esteja apenas atento àquilo que está a surgir dentro de si, e coloque-o acima de tudo de que se aperceba à sua volta.


O que acontece dentro de si merece todo o seu amor, é isso que deve trabalhar sem desperdiçar demasiado tempo ou energia a tentar explicar a sua posição aos outros.

Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta

A grandeza que nos coube foi essa ao menos de saber. Devemos tentar conquista-la até onde ela se anuncia. E se o absurdo é a face desse ténue limite, assumo-o como quem não rejeita nada do que ainda sou eu. A cobardia não está em assumir esses limites, mas em recusa-los.

O «para quê» que nos antepõem todos aqueles que se dizem sensatos implica um utilitarismo de todo o instinto prático e animal. Mas somos nós contra tudo o resto que temos o fulminante poder de sabermos quem somos. É aí que cabe a nossa condição, é aí nesse lugar que cabe a nossa interrogação incrivelmente fascinante e sem limites.


O dilema consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, ao lhes propor a nossa personalidade.

O que sinto, na verdadeira substância com que o sinto, é absolutamente incomunicável e quanto mais profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é. Para que eu possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, que dizer tais coisas como sendo as que eu sinto, que ele, lendo-as, sinta exactamente o que eu senti.

Afinal o que tenho que fazer é converter os meus sentimentos num sentimento humano típico, ainda que pervertendo a verdadeira natureza daquilo que senti. Delírio? Não.



De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.
Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.

É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-Ihes os actos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demónio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consume tudo. Deixa-nos nus até de nós.

Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.

(com um brilho nos olhos) - Bernardo Soares, in Livro do Desassossego)

Porque às vezes é bom recordar...


Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela?
Põe-na lá.
Vergílio Ferreira

Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Bem, na verdade já não é bem um evitamento porque já nem me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear. Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos de tudo e mais qualquer coisa que ainda esteja por existir.

Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos e por todos os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras, de que podem ser, se ainda não são, os melhores.

Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?


Alentejo, Alentejo... Seja onde for, quanto mais a sul me vejo menos eu sinto esta dor.

Vou no espírito do vento, parto de manhã deixando atrás o desalento e o tormento de um não.

Não me venhas com lamurias, não te escondas num lamento. O tempo passa a voar.

Não me contes mais histórias, dessas de adormecer, a minha ainda está só no amanhecer.

Alentejo meu desejo, onde eu hei-de ser... Logo à noite dá-me um beijo, que a vida são dois dias e passam a correr...

Passam a correr e não param ao passar...

Adaptado de Xaile

Não quero pensar sobre amanhã. Não quero recordar-me do que foi ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. É tudo tão efémero, mesmo o que se pensa para amanha é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. O tempo não tem futuro nem passado, foi apenas o que dele escolhi no meu mais absoluto e intimo sonho.

Não quero pensar para amanhã na urgência de ser agora. Mesmo logo ao final da noite, à tarde - que seja - será sempre muito tarde. Tudo o que sou, sou-o em mim para ser. Tudo o resto é provável insensatez.

Não quero esperar, quero ser agora.

Leio papeis, livros, jornais... o futuro pode bem ser o embrulho que fizer deles e não do papel urgente da retrete quando não houver outro.


Hei-de esculpir o futuro ao jeito do criador que extrai a obra de mármore a golpes de cinzel. E caem uma a uma as escamas que escondiam o rosto do deus.
E os outros dirão que aquele mármore continha esse deus, acusando-o de que apenas o havia encontrado - para esses, o seu gesto não passava de um meio.
Mas eu cá digo que ele não calculava, ele forjava a pedra. O sorriso do rosto está muito longe de ser feito de suor, de faíscas, de golpes de cinzel e de mármore. O sorriso não é da pedra, mas sim do criador.
Antoine de Saint Éxupery, in «Cidadela»


De que doses de imaginação se faz uma vida para se conseguir compensar o que não se realiza?
Todos sabemos e nunca ninguém sabe. Projectamos ao milímetro uma reacção a ter, uma ofensa em sentido de vingança a desenvolver, uma desconsideração a menosprezar e uma conquista a fazer.
E depois?
Depois sai sempre outra coisa. Nem nos vingamos porque tropeçámos numa fraqueza, nem menosprezámos a desconsideração porque nos menosprezaram o nosso menosprezo, nem conquistámos nada porque «amanhã é que é».
Mas falhada a nossa reacção, logo pensamos de novo em trazê-la ao real e com acréscimo de efeito – até que o tempo tudo decida por nós. E acabamos por achar que decidiu bem, porque o mais fácil de resolver é sempre o não resolver.

«Não és normal» - nunca o pensaste? Isso é te uma inferioridade (ou uma superioridade?). Como em tudo o que é diferente, cultiva a tua diferença. Mas uma diferença pode ser negativa, parece ser esse o drama. Porque a tua diferença vai além e fica aquém dos outros. Tu querias ser os outros no em que lhes és inferior e ser diferente no em que lhes és superior. Mas toda a superioridade se paga. Paga e não reclames por isso.
(...)

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!


Génio?
Neste momento cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
(...)

(Come chocolates, pequena; come chocolates!)
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
(...)

(...)

Álvaro de Campos ~ Tabacaria (fragmentos)

Escusado seria dizer que ninguém que participa num delírio o reconhece como tal. Mesmo assim, urge admitir que tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo.
A ingenuidade é o legítimo segredo de cada qual, a sua verdadeira idade, o seu próprio sentimento livre, a alma do nosso corpo e a própria incandescência de toda a nossa resistência moral.

Mas os ingénuos são os primeiros que ignoram a força criadora da ingenuidade, e na ânsia de crescer compram vantagens imediatas ao preço da sua própria ingenuidade. Tornam-se vítimas de si mesmos, suicidas dos seus legítimos poetas.

E, uma vez roto o caminho, já nunca mais se encontrará sequer aquela ponta por onde se rompeu.
É a palavra de ordem. Destruir. Tudo.

Os deuses, as artes, diferenças, ou a só cultura, valores de qualquer espécie, filosofias, o simples pensamento, a simples palavra - tudo alegremente ao caixote.

Entretanto, ou por isso, proliferação das gentes com a forma que lhes pertence, devastações diversas, que foi o que de melhor a natureza arranjou para equilibrar a demografia, droga dura para se avançar na vida mais depressa, criminalidade para esse avanço, juventude de esgotos nocturnos, velhos em excesso e que não há maneira de se despacharem e atulham os chamados lares de idosos ou simplesmente os depósitos em que são largados até mudarem de cemitério, 'politiqueiros' que têm a verdade do erro que se segue e o mais e o mais...

É tempo de cair um 'pedregulho' como o que acabou com os dinossauros há milhões de anos e de poder dar-se a hipótese de a vida recomeçar. Até que venha outra vez a destruição e o senhor lá de cima definitivamente se farte do brinquedo.


No entretanto, vou procurando ainda por alguma flor ao natural e demoro-me eternidades a admirar-lhe a sua beleza e estupidez.
As pessoas... hei de passar a vida a fazê-las provocar confidências. Os loucos? Esses são pessoas de honestidade escrupulosa e cuja inocência só encontra um semelhante em mim.

As pessoas...
querem simplicidade ou diversidade?
querem ser mais felizes, ou mais indiferentes à felicidade?
Ficar mais satisfeitas, ou mais exigentes?
mais amigáveis, ou mais desumanas?
São mais prudentes, ou mais impulsivas?
Querem atingir um fim, ou evitar todos os fins?

O que nos faz pessoas é a sede e o olhar.
Dar, derramar-me num vaso que nada retém e ser fio por onde circulam ventos e marés.

Aspirar as forças que me rodeiam, o sol e o fogo, as fontes que vêm do fundo e do alto, água e ar, e derramá-las no teu corpo, misturador que tudo guarda e transforma para que nada se perca e haja um equilíbrio perfeito entre o mesmo e o outro que tu iluminas.

Dar tudo, dar tanta verdade quanta se possa suportar, e mais, obrigar-te a uma elevação para um grau superior de fulguração...

Amar diz-se raro.
Exige-se respirar as planícies com metade do que somos, e amar é raro porque poucos aceitam a presença do seu gémeo, a boca insaciável de quem todos os dias o vento esculpe e destrói.

Tentar evitar o meu núcleo esquizóide.

Há dias em que essa luta parece perdida.

Momentos em que nem para nós próprios...