Envelhecer

Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer...

Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente.

Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice.

Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim'

Fragmentos

são eles,
os pensamentos,
restritos à condição do efeito que lhes deu origem, num instante,
e
sou eu,
quem lhes chega sem saber a que venho e nem mesmo se me ergo,
qual incêndio crescente a eclodir rente ao firmamento.

Ana de Sousa, Fragmentos - Livro I

...de quem espero que não veja má importância no acto de aqui colocar as suas palavras.

Ideais

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,

multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.


Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

~Eugénio de Andrade


Assim os levou consigo, adormecidos, os seus ideais, que lhe permanecem, pelo menos em espírito, espero, tal como deveriam florescer em quem não os detém como seus: é urgente que o façam. Bem pior do que não os termos em nós, é termo-los e não sermos donos de o saber e de o dar também a conhecer... ao mundo.
É urgente.

Há um ano atrás...

Não haviam palavras desnecessárias. Tudo o que era dito, era aceite e compreendido com a maior das atenções, como se nada mais houvesse, porque realmente nada mais interessava. Dediquei-te o meu tempo. Fiz crescer algo visível. Tudo porque senti que podia dar a mão a quem precisasse de mim (por muito que não o admitisses). Tudo isso transformou-se no que sabemos.

Hoje, agora, um ano depois, nem tu nem eu temos culpa das minhas angustias, ou da força das circunstâncias, do que me tira o fôlego e o ar que queria ter para respirar (mais). O facto é que também estou neste estar, no meio de um invólucro de situações que, emaranhadas, parecem insolúveis.

A vida é assim, dizes. Então respondo-te que nos resta não nos pontapear-mos uns aos outros porque a solução, embora não saiba onde está, de certo que não está aí. A palavra mais certa que tenho é união e espero de modo sincero que seja essa uma das que governe a minha vida até bem longe.

Passou um ano de muita, muita história para contar no futuro, de lembranças que vão ficar para sempre guardadas em mim, se a minha memória mo permitir, até ao fim. Altos e baixos, sorrisos e lágrimas, escuridão e a mais intensa luz.

Aprendi a dar nós. Porque também se aprende a dar nós. Espero que tenhas aprendido algo comigo.