"Todo amor começa antes de começar, devia saber. Começa num encontro que se não teve. E quanto mais antes, mais verdadeiro. O nosso encontro foi no eterno, que é onde vale a pena acontecer o que acontece."
"De noite o mar aproveita para ser medonho. Porque o medo é mais feito do possível que do real. Um condenado à forca quando sofre mais não é quando tem a corda no pescoço. Penso eu, que ainda não fui enforcado. E o escuro tem mais carga de possíveis."
Vergílio Ferreira
"Em mim foi sempre menor a intensidade das sensações que a intensidade da consciência delas. Sofri sempre mais com a consciência de estar a sofrer que com o sofrimento de que tinha consciência. A vida das minhas emoções mudou-se, de origem, para as salas do pensamento, e ali vivi sempre mais amplamente o conhecimento emotivo da vida. E como o pensamento, quando alberga a emoção, se torna mais exigente que ela, o regime de consciência, em que passei a viver o que sentia, tornava-me mais quotidiana, mais epidérmica, mais titilante a maneira como sentia.
Criei-me eco e abismo, pensando. Multipliquei-me aprofundando-me. O mais pequeno episódio - uma alteração saindo da luz, a queda enrolada de uma folha seca a pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do muro com os passos de quem a diz juntos aos de quem a deve escutar, o portão entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas aglomeradas ao luar - todas estas coisas, que me não pertencem, prendem-me a meditação sensível com laços de ressonância e de saudade. Em casa uma dessas sensações sou outro, removo-me dolorosamente em cada impressão definida."
Criei-me eco e abismo, pensando. Multipliquei-me aprofundando-me. O mais pequeno episódio - uma alteração saindo da luz, a queda enrolada de uma folha seca a pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do muro com os passos de quem a diz juntos aos de quem a deve escutar, o portão entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas aglomeradas ao luar - todas estas coisas, que me não pertencem, prendem-me a meditação sensível com laços de ressonância e de saudade. Em casa uma dessas sensações sou outro, removo-me dolorosamente em cada impressão definida."
Fernando Pessoa

