Passar das Horas

Sim, passava aqui frequentemente, por toda esta cidade, há vinte anos... Nada está mudado — ou, pelo menos, não dou por isto — Há vinte anos!... O que eu era então! Ora, era outro... Há vinte anos, e as casas não sabem de nada... Tento reconstruir na minha imaginação quem eu era e como era quando por aqui passava. Há vinte anos... Não me lembro, não me posso lembrar. O outro que aqui passava, então, se existisse hoje, talvez se lembrasse... Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro de que esse eu-mesmo que há vinte anos passava por aqui!

Sim, o mistério do tempo. Sim, o não se saber nada. Sim, o termos todos nascido a bordo. Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer... Podemos imaginar tudo do que nada sabemos. Houve um dia em que subi esta rua pensando, hoje, descendo esta rua, quando muito, nem penso...

Sentir tudo de todas as maneiras, viver tudo de todos os lados, ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo. Realizar em mim toda a humanidade de todos os momentos num só momento difuso, profuso, completo e longínquo. Sentir tudo de todas as maneiras, ter todas as opiniões, ser sincero contradizendo-me a cada minuto, desagradar-me a mim próprio pela plena liberalidade de espírito.

Adaptado de Álvaro de Campos.

Fui educado pela Imaginação, viajei pela mão dela sempre. Pensei sempre por tudo o que vivi e todos os dias têm essa janela por diante, todas as horas parecem minhas dessa maneira, dessa minha, única, subtil e colossal Embriaguez de Pensamentos.

Nietzsche e a Origem da Tragédia

A Origem da Tragédia, vê no seu horizonte a contraposição entre o espírito apolíneo e o espírito dionisíaco na cultura grega e, através dela, na cultura ocidental e visa acima de tudo a valorização dessa oposição colaborante entre esses dois espíritos, que em conjunto constituem a sabedoria trágica. Em simultâneo, pretende transportar essa forma dupla de encarar a realidade para a cultura contemporânea. Segundo o autor, perdendo a tragédia, o homem perde inevitavelmente a fé ou crença na sua própria imortalidade.

Nietzsche, mediante este recurso à compreensão do espírito da antiga tragédia grega e do seu próprio declínio, procura essencialmente explicar as causas da decadência da cultura ocidental contemporânea que é, para este filósofo, a representação cabal de um estado de decadência inevitável e irreversível, decadência essa assente em três pilares fundamentais: a religião e os seus valores, que, nascendo do medo e sendo uma vingança dos fracos sobre os fortes, acaba por matar o ser humano que há dentro de nós; a moral, que cerca a nossa maneira de ser e de viver, que é «contra-natura» e que impõe leis contra os instintos primordiais do homem; finalmente a razão, assente na tentativa de endeusamento da ciência (que é vista abaixo da óptica da arte e da vida), positivismo, enfim, no estatismo do ser e consequente rejeição do instintivo e do biológico.

Desvaloriza a cultura grega socrático-platónica, de cariz optimista-racionalista e toda a cultura ocidental que nela radica e assenta. Questiono-me sobre se não poderemos ver em Nietzsche um decadente que não suporta a decadência e que em alternativa procura ser auto-terapeuta, não esquecendo obviamente que, numa concepção axiológica, o niilismo assume um autêntico efeito de «aspirina», na lógica de decadência?

Defende-se um regresso do homem ao Uno Primordial, como único meio de sair do sofrimento imposto pela individuação em que se encontra, em cujo ponto de chegada está a sabedoria ou espírito trágico, sendo ao mesmo tempo concretizado fisiologicamente na criança, símbolo da ingenuidade e acima de tudo, da possibilidade de começar de novo e de pôr em prática a plenitude das suas capacidades criativas. Mas sendo um constante regresso, não se estará a condenar o progresso, mesmo o progresso baseado em «dar um passo atrás para em seguida dar dois à frente»? Não negando que é importante começar de novo e receber um novo impulso, este eterno começar não limita as perspectivas de mudança e a natural ambição do ser humano? Não matará a acção? A abordagem do regresso não deveria ser feita segundo uma espécie de libertação mais sábia e não ingénua?

Nietzsche colocou um ponto de interrogação no caminho percorrido pelo homem europeu, desde a antiguidade clássica até ao tempo moderno. Apela a uma negação total do passado e a uma indispensável reconversão radical. Por este motivo, assume-se por inteiro: «eu não sou um homem, sou dinamite».

O modo como mostra o seu pensamento é ambígua porque ao longo da obra, pois parece não existir um encadeamento lógico das ideias, dentro da formação e progressão de um pensamento, de uma doutrina. Este saltitar constante e as mudanças repentinas de posição podem pôr em causa a solidez dos seus pensamentos. Pelo contrário, o seu pensamento é intuitivo e não conceptual, pois não utiliza meios do pensamento abstracto do ser, uma vez que este pensa por rasgos, repentismos e não por uma forma laboriosa de exposição abstracta.

Nenhum filósofo escondeu tanto as suas reflexões sob tantos sofismas, como o fez Nietzsche. Contudo, também a tragédia se define mais pela natureza das questões que coloca, do que pela natureza das respostas que fornece e, neste sentido, Nietzsche materializou o verdadeiro espírito da tragédia.

Texto parcialmente retirado de um trabalho do meu 12ºano, com saudades do Prof.Constantino.

Subjectividade(s)

Existem aqueles que levam a vida a olhar para baixo, como se não houvesse céu, são os que reclamam de tudo e não se preocupam com nada senão consigo mesmos. Há os que olham demasiadamente para trás, saudosistas, lamentando o tempo que passou e que não volta, querendo dar arranjo a algo que ficou mal concebido. Existem ainda os que olham para os lados, numa eterna e constante comparação com os que o rodeiam...
(Existo) aquele que vive em constante olhar fitado para cima, à procura não se sabe bem do quê, de uma inspiração. Para a frente, quando procuro construir um futuro melhor, para os lados, quando procuro consolidar amizade(s) e relações, para trás, quando procuro aprender algo com o passado, e também para baixo quando procuro o meu desenvolvimento pessoal e, desse modo, a concretização de todos os outros aspectos. E ser feliz.

Não me devo esquecer de que quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade.* Por isso mesmo, resta-me tentar definir-me dentro da minha própria subjectividade, para que, para além de me poder distinguir dos demais, me sinta capaz de tornar reais, presentes e definitivos aqueles que me são tudo. A meu ver, é a nossa capacidade de discernimento, escolha e subjectividade que nos torna verdadeiramente dotados de essência.
*frase de Fernando Pessoa

Querer é Poder

Nesta noite, eu, envolto em papelada, mas, cheio de saudades... só penso em ir passear contigo. Quero dar-te a mão e andar por aí ao teu lado! O meu amor por ti não para de crescer. Quero-te num abraço. Quero-te ao meu lado, quero tanto partilhar tudo o que é meu contigo, quero sentir que o mesmo é o que queres em relação a mim... ambiciono construir, construir-mos a nossa vida, juntos.

Amo-te com tudo o que tenho para te dar.
Quero amar-te e, posso amar-te, para sempre.